Quando achava que já não dançava, a pintura entrou na sua vida. «Aos 3 anos os pés fogem-lhe para a dança. Aos 4, as mãos para o desenho. Problema. Uma vida dividida. Ana Caetano foi bailarina profissional aos 16 anos no Ballet Gulbenkian. Aos 19, pára de dançar e forma-se em design gráfico no IADE. Aos 23 volta à dança.» O SOU esteve à conversa com a artista numa das actuações de Body Print que está a decorar o nosso espaço.

O que significa para si este conceito de Body Print?
Ana Caetano – Nasceu de um percurso de vida. Eu fui bailarina e numa certa altura, em que eu achava que já não dançava, a pintura entrou na minha vida.
Há pouco tempo fui convidada para entrar num projecto que se chama Compota, organizado pela Paula Pinto e promovido através da Associação Sentidos Ilimitados. Esse projecto é uma plataforma de encontro entre várias artes, onde se cria um espectáculo à base da improvisação e onde artistas de várias áreas se juntam e partilham esse momento. Isso interessou-me porque sempre gostei de improvisação e porque achei que era uma maneira de poder juntar duas vertentes: dança e artes plásticas. Desta forma, resolvi pintar e usar o movimento e a partir daí pintar com o corpo.
Como foi a primeira experiência?
Ana Caetano – Foi no Teatro do Bairro, com a Comporta, em Novembro de 2011. Havia muitas coisas a acontecer e a atenção não estava em mim. No início, as pessoas viram-me ali com umas tintas, mas depois o olhar foi para outra parte do espectáculo. Estava a decorrer uma projecção que era feita em directo e que de vez em quando mostrava a imagem do que eu estava a fazer. De repente, quando ninguém estava à espera, começou a aparecer uma cara.
As pinturas são, geralmente, uma cara. Há alguma inspiração em particular que a influencie?
Ana Caetano – Não. Não sei ao certo o motivo da cara gigante. Foi algo que me atraiu. Sempre gostei de pintar pessoas e caras. Quando comecei a pintar num formato maior, pensei em ampliar uma parte…daí ampliar a cara.
A primeira vez que fiz body print disseram-me que era eu. Eu não estava a pensar pintar-me, mas foi assim que saiu, talvez porque eram os traços que estava mais habituada a desenhar.
Através das caras posso traduzir as diferentes expressões dos olhos, do nariz, da boca e a posição do cabelo.
Também sou influenciada pela expressão do movimento e do traço (que pode ser mais suave ou mais agressivo, como também com tinta a escorrer). Estes factores nem sempre são calculados, pois são deixados um pouco ao acaso. Eu acho que essa característica faz parte desta pintura que eu considero uma pintura muito rude: é papel, é tinta, é uma coisa crua, muito directa.
Sendo este trabalho uma fusão entre a dança e a pintura, há tendências que o influenciem?
Ana Caetano – Na dança fiz um percurso de muitos anos, aprendi ballet, aprendi jazz e aprendi dança contemporânea com vários professores diferentes e de várias técnicas diferentes até encontrar aquilo que me agradava na dança contemporânea (que era a improvisação). Fascina-me a possibilidade de criar o meu próprio movimento e o meu próprio espaço. Este é um trabalho no qual é necessário desfazer todas as técnicas e toda a aprendizagem para se conseguir encontrar a própria voz. Na pintura estou agora a fazer esse processo, a estudar, a pesquisar.
Há algum tipo de preparação prévia?
Ana Caetano – A proposta do body print é ser feito em qualquer sítio, em qualquer espaço, com qualquer público e até com colaboradores diferentes ( que podem ser músicos ou trabalhar com a imagem, por exemplo). Até agora têm aparecido situações diferentes. É sempre um desafio. Eu gosto deste desafio, que é: “deixa lá ver agora quem são estas pessoas, qual é a matéria deles e como é que eu me posso encontrar de alguma forma com eles”. Pode não haver um tema específico, mas alguma coisa que sirva de ligação com os colaboradores. Depois nós alimentamo-nos uns aos outros.
Quando coloca o papel em branco na parede não faz ideia do resultado final?
Ana Caetano – Não. Hoje de manhã não sabia ainda o que iria fazer hoje à tarde.
E surpreende-se quando o vê?
Ana Caetano – Sim, sim. Há dias que correm melhor do que outros. Às vezes, quando vejo as imagens finais, apercebo-me que deveria ter parado um pouco mais cedo. Mas há uma vontade de pôr sempre mais.
Há outra dificuldade relacionada com o facto de pintar num grande plano uma vez que tenho que recuar para ver melhor o que estou a pintar e nem sempre consigo.
O público presente tem alguma influência no que está a pintar?
Ana Caetano – Não sei se me influenciam, ainda não percebi. Houve um dia em que estavam maioritariamente crianças a assistir e acabei por fazer uma pintura um pouco mais infantil, mas não sei se foi pelo público ou por eu nesse dia estar mais influenciada por esse ambiente.
E no que toca a colaborações com outros artistas?
Ana Caetano – Com outros artistas normalmente isto torna-se mais um espectáculo e tem outra dimensão. Geralmente é a noite, costuma haver música, ou músicos, e é um formato em que o ambiente em si é mais de performance. Eu sinto isso de uma maneira diferente, porque tento não estar só preocupada com a minha pintura mas também com a parte performativa do meu corpo.
Qual o balanço dessas experiências?
Ana Caetano – Ainda não consigo estar só “no momento”. Quando estou a fazer estas pinturas fico preocupada com o resultado. Isso é mais forte do que eu. Ainda estou a tentar resolver esse conflito. Acho que em performance e em espectáculo a questão que se põe é: “estar lá no momento” e sem preocupação no resultado, porque tudo se torna uma coisa mais emotiva.
O que podemos esperar em relação aos espectáculos deste fim-de-semana?
Ana Caetano – Em relação ao espectáculo de Sexta-Feira, eu ainda não conheço os artistas com quem vou participar e não sei se os vou conhecer só no próprio dia. Vou fazer uma pequena pesquisa acerca do trabalho deles, para me situar, e acho que o encontro vai ser uma surpresa para eles e para mim. Para o público vai ser uma surpresa ainda maior, pois o público que vem ver o Manuel Cintra e o grupo de música Caruma não deve estar à espera de ter lá uma pessoa a pintar. No fundo, vou trazer mais alguma coisa ao espectáculo deles. Acho que vai ser uma surpresa e espero que gostem.
No Sábado, eu convidei outras pessoas para participarem comigo (os A Ko.Zinha). Vai ser a inauguração da exposição, com um espetáculo. Eles também compõem musicalmente e um deles vai “brincar” com imagens. Mas vai ser tudo uma surpresa pois eu não sei muito bem o que é que ele vai fazer e vou ter que jogar com isso, embora eles já conheçam o meu trabalho.
Vão, portanto, surpreender o público?
Ana Caetano – Para o público eu acho que é sempre uma surpresa. Como o formato nunca é igual, é sempre uma surpresa. Pintar ao vivo, com o corpo, não é uma coisa muito frequente.

Dia 11 (Sex.)
ANA CAETANO + CARUMA (Manuel Cintra) | Body Print + música e poesia | 22h | 3€ | mais info (…)
Dia 12 (Sáb.)
ANA CAETANO + A.KOZINHA | Performance som, vídeo, body print. Inauguração da exposição | 22h | 3€ | mais info (…)
Entrevista: Carla Neves