SOU entrevista RITA BRAGA: «As pessoas não se importam de não perceber a língua»

Muito muito muito muito em breve a Ritinha vai partir para Nova Iorque. Despede-se de Lisboa nos Anjos.  No SOU. Na porta vermelha que cruza a Forno do Tijolo.  Do forno cá de baixo saem roupas da Vintage Boutique que conquistaram os olhos da amante das canções da velha Hollywood e do antigo country-blues . Sai uma tortilha mexicana e um chá antes da entrevista/conversa do SOU com a menina-grande que foi o alter-ego confesso da malta Le Cool Lisboa na edição desta semana.

Novembro é mês cor-de-rosa nos cartazes do SOU. Rosa de Rita. Rita Braga. Fomos descobrir que o olhar tímido esconde mãos que são infiéis porque namoram os lápis de cor e as cordas do ukelele. Tem dias que é no mesmo dia. Tem noites que é ao mesmo tempo.  «Então e a entrevista com a nossa Ritinha quando sai, pá!» Sai  logo pela manhã do dia da despedida. Bem quentinha  como o pão e com novidades fresquinhas « – tenciono começar a preparar um novo disco,  se calhar com originais». É  para ser mordida, trincada e devorada com os mais próximos e fazer likes, partilhas ou imprimir como nos velhos tempos e ler em papel e guardar muito bem os segredos na boca « – Nunca aprendi músicas de Natal  e vou fazer isso… » e depois… engolir: « – As pessoas não se importam de não perceber a língua.»

O que te fascina mais no universo musical dos anos 20?

Rita Braga – São várias coisas. Já há alguns anos que estou com este repertório, desde 2005 que foi o primeiro concerto. Nessa altura estava a conhecer este tipo de música e cheguei aos anos 20 quando conheci muito repertório  através de uma cantora americana.

No entanto, para além da época, as sonoridades de diferentes países, como cantar em grego, em inglês ou em russo, é algo que também faz parte da tua obra musical. Como surgiram esses caminhos?

Rita Braga –  Neste projecto   são essencialmente versões de músicas antigas americanas, mas também há  uma portuguesa, cinco eslavas … Desde o início estive a coleccionar músicas antigas de vários países e de várias línguas e depois fui juntando e foi crescendo para outras línguas.

Quais as grandes diferenças em cantar nas diferentes línguas? Quais as maiores dificuldades e mais valias que tiveste enquanto intérprete?

Rita Braga – Todas as músicas são diferentes. Tento interpretar com uma certa expressividade. Eu tento perceber mais-ou-menos o tom de cada música. Às vezes, tem a ver com a língua e outras vezes com outras coisas . Tento ser expressiva ao interpretá-las.

Mais através da mensagem ou mais pela forma?

Rita Braga – Tem mais a ver com o feeling da música. Não é tanto pelo conteúdo da letra,  é mais pelo tom em geral que a música transporta. Não sou uma pessoa muito técnica a tocar. É mais o feeling.

O que eu é que te fascinou e levou à escolha do ukelele?

Rita Braga – São coisas que vieram naturalmente. Foram as músicas dos anos 20 e além disso eu também já tocava há vários anos. Tocava piano, tocava guitarra e depois fui afeiçoando-me ao ukelele porque tinha um som giro e é muito prático, pois cabe em qualquer lado.

Quais são as grandes vantagens ou desafios em tocar sozinha?

Rita Braga – É muito diferente tocar sozinha ou com outros músicos. Há vantagens em tocar sozinha. Eu gostava de ter uma banda, mas nem sempre é possível e eu sou bastante selectiva com as pessoas com quem toco.  Estou sempre aberta a colaborações mas também não é fácil arranjar pessoas com esse compromisso, pois dou espectáculos ao vivo e é preciso que as pessoas estejam disponíveis . Por exemplo,  senti muita empatia com a música americana e com o Chris Carlone,  que toca no meu disco. Ele actua em Nova Iorque e vários músicos do meu disco gravaram lá. Por cá também tenho alguns músicos que convido,  mas toco mais a solo.

O teu processo de criação artístico é mais influenciado a partir de uma letra de uma música ou da sonoridade  de um instrumento?

Rita Braga – Neste caso específico (versões) eu vou conhecendo músicas em que tento fazer uma apresentação interessante. Em parte acho que sou bastante fiel ao original, mesmo depois adaptando o ukelele,  ou outro instrumento. Acho que parte mais em ouvir bem as músicas e perceber o que é que essas músicas transportam.

Qual é o teu maior desafio nesse trabalho? É a adaptação ao ukelele?

Rita Braga – Eu como actuo muitas vezes a solo e com o ukelele,  acho que o maior desafio é tornar as músicas um pouco diferentes para não tornar muito repetitivo. Num concerto toco cerca de 40 minutos. Acho que é uma boa dose. E tento sempre tocá-las de formas diferentes.

No passado houve algo marcante que te levasse a seguir o universo musical/artístico?

Rita Braga – A par da música sempre desenhei. Isso sempre esteve presente, tanto a música como o desenho. Agora não tenho desenhado tanto… Foram coisas que sempre quis fazer. Comecei pelo piano e depois também queria fazer animações.  Agora tenho feito algumas bandas sonoras. Não me lembro de nenhum momento específico que tivesse sido marcante. Acho que sempre esteve presente.

Existe algum tipo de influência da ilustração na  música e/ou da música nos desenhos?

Rita Braga – No meu caso está quase sempre ligado: quer a fazer cartazes para concertos ou a fazer bandas sonoras para filmes de animação. Muitas versões que faço são de filmes antigos e de animação. Vou agora participar num festival de banda desenhada para filmes de animação nos E.U.A no Brooklyn Comics and Graphics Festival.

O que é que exige de diferente ao compor uma música que vai ser representada de outra forma?

Rita Braga – É diferente responder à imagem directamente . No fundo, penso que o mais exigente é saber bem os tempos do filme. Perceber qual é a sensação que os filmes transportam e preparar um sentido emocional. É mais a música ao serviço do filme do que só a música. Eu deixo-me influenciar pelos filmes. Neste caso específico, do Festival nos EUA , eu nunca tive a experiência de tocar ao vivo.  Vai ser uma actuação mais instrumental e vou rodar vários instrumentos. Para além do ukelele, vou tocar piano.

O que faz todos os dias continuar nesta área artística e não ir por outro caminho tendo em conta as dificuldades?

Rita Braga – Acho que tive um grande incentivo em continuar quando comecei a fazer mais tournées na Europa, em Portugal e nos EUA. Mas acho que foi principalmente nos EUA  onde conheci imensa gente com a qual tive imensa empatia.  Havendo mais concertos  isso dá vontade de continuar apesar de não ser uma área fácil.
Não toco aqui com tanta frequência como gostava, daí ter também começado a andar em tournée. Num país pequeno os meios também são pequenos. Não é muito fácil encontrar pessoas com quem colaboro. Daí também andar um pouco a solo.

Quais são as expectativas para os próximos projectos?

Rita Braga – Agora vou estar três meses nos EUA  e estou a aproveitar a viagem para  organizar tudo, para preparar um repertório novo para esse festival, para os filmes, para as festas de Natal (risos). Nunca aprendi  músicas de Natal  e vou fazer isso (risos). Depois,  quando tiver mais tempo, tenciono começara a preparar um novo disco,  se calhar com originais…Ainda não sei muito bem (risos).

Quais as tuas expectativas para o concerto aqui no Sou num espaço que para ti é novo?

Rita Braga – O espaço é bom. Não tenho expectativas. Gosto de não ter expectativas. Espero ter uma boa recepção.

Fotos: http://superbraguita.com
Entrevista: José Luís Costa