SOU entrevista ATMA: «Se a vibração termina, a vida colapsa.»

O SOU esteve à conversa com os ATMA num ensaio em ambiente bem familiar. Após o lançamento do primeiro álbum “Com a mesma alma”, o grupo continua em constante criação musical de composições novas e mais antigas. Improvisação e cumplicidade são as palavras  de ordem em toda a dinâmica criativa do world music que promete trazer novidades muito em breve: « (..) se tudo correr bem irei ter um instrumento que será guitarra e bandolim. Já fiz a encomenda! ».
Conheça como foi a criação do primeiro álbum, como compõem e integram diferentes instrumentos e quais os sonhos do grupo com “quatro espíritos e uma só voz”.

Como surgiu a criação do primeiro álbum?
Berta Azevedo – O processo criativo das músicas do primeiro álbum foi algo que não parou.  Houve uma série de músicas que tiveram alterações durante a gravação. O processo de gravação foi muito interessante porque a banda saiu mais coesa com tudo mais trabalho e definido .  As composições são do Hugo, sendo que ele é bastante permeável a quaisquer inovações e alterações. O Hugo traz as composições e o grupo começa a trabalhar sobre o tema e vamos fazendo alterações. Foi assim que aconteceu durante o álbum.

José Sebastião – Às vezes a mesma música que começava por ser uma balada, começa a ser uma música mais ritmada…

Jorge Machado – Isso aconteceu de forma natural desde o começo. Para  além de sermos só dois (eu e o Hugo) havia menos instrumentos. Depois foram adicionados novos instrumentos até que chegámos ao álbum . Houve outras pessoas que participaram no projecto ligadas ao teatro, dança e animação. Tivemos várias pessoas que participaram.

José Sebastião – Foi um encontro de amigos. É interessante a confluência de pessoas e os caminhos que se partilham. Eu gosto de funk,  jazz e rock e isto é world music. É um pouco diferente…tive que trabalhar um pouco a sensibilidade para este tipo de som. Não é propriamente a minha praia, mas eu sinto que a banda recebeu muito bem o meu groove

Hugo Claro – Isso permite também fazer outras abordagens. Mas a partir daí cresce uma situação..

Na fase de criação qual é a maior influência?
Hugo Claro – No meu caso é a minha vida e as minhas experiências. De dentro para fora e de fora para dentro. Eu gosto de tocar porque me dá prazer. Estou a tocar uma “malha” e surge essa “malhazinha” e depois … às vezes acontece sair a música e depois a letra…Às vezes é ao mesmo tempo. ..Nós agora estamos a preparar as músicas que já tocávamos de uma outra maneira para não ser sempre a mesma coisa. Vêm aí músicas novas. Estamos a fazer um processo de criação …Juntar uma “malha” num e uma “malha” de outro…Improvisar!

Como surge a inclusão de novos instrumentos ?
Hugo Claro – Hoje em dia eu quase só toco guitarra portuguesa. É tudo muito intuitivo e natural…É a aprender a tocar um instrumento que surgem as músicas….
 José Sebastião – A música é uma espécie de contar de história. É uma sopa que vais e mergulhas. Depois tiras um pedaço dessa sopa e contas uma história. Mas a sopa criativa é infinita e podes sempre tirar de lá alguma coisa…

E como é que surgem essas escolhas?
José Sebastião –
Às vezes temos ensaios que é só sopa… (risos). Vamos começar a tocar e não sabemos onde aquilo vai parar…Rimos no meio do improviso e às vezes fazemos um trio juntos. Isso tem também a ver com a linguagem do improviso e o facto de alguns de nós ter uma ligação ao jazz. Gostamos da música pela música , do poder navegar lá e experimentar sem estarmos muito preocupados em fixar. Depois, quando faz sentido ficar, surge um tema.

Normalmente é a música que influencia a letra ?
Hugo Claro-
Normalmente é ao mesmo tempo, mas geralmente surge primeiro a música…

Berta Azevedo – O processo criativo é participado e nem todas as músicas surgem assim, ou seja, há um história, há preces, e temos letras que surgem de diversas formas.

José Sebastião –  Por exemplo, temos uma música que é com assobios. No fundo é entender o que a música nos está a dar. Depois, as palavras, ou os sons, surgem nessa cadência.
 Para vocês qual é grande sentido da música enquanto arte?
(risos)
– Vamos ensaiar ?!
O que é que vos move?

Hugo Claro – A música é o sentido da minha vida. Quando acabar a música…acabou. É o nosso sonho. É vontade. É interrogação. É o transcendente. Por causa disso é que estamos aqui.

José Sebastião – Eu vejo a música como vibração. Som. E é aquilo que ele diz…É um electromagnetismo universal que tem uma forma de ser ouvido. O universo fala e fala sobre várias formas. E é impressionante ver a quantidade de coisas que o universo tem. É sempre diferente e em estilos completamente diferentes. E claro, acaba a música, acaba o resto. Porque se a vibração termina, a vida colapsa.

Se tivesses que escolher um só instrumento para compor, qual era?
Hugo Claro – Era a guitarra portuguesa! (Risos) No início, a minha preferência foi a guitarra clássica. Mas a influência por viver em Portugal foi buscar certas notas por aquilo gostava de ouvir em Carlos Paredes , que adorava e adoro…Nunca imaginei vir a tocar guitarra portuguesa. É algo recente. Vai fazer três anos no Natal. Foi o que eu fui aprendendo que me preparou para eu abordar aquele instrumento. Eu aprendi tudo sozinho, mas não quer dizer que eu não queira aprender mais técnicas e acordes. Sou muito instintivo. Eu misturei todas as técnicas que aprendi de cordas e estou a inventar outras. Toco de uma maneira diferente  da técnica normal,  mas não estou a dizer que é melhor ou pior. A minha maneira de fazer é misturar certas coisas:  se tudo correr bem irei ter um instrumento que será guitarra e bandolim. Já fiz a encomenda!
 O que vos move quando estão em palco?
Bela Azevedo – Tudo. É muita energia e informação a circular. Informação explícita, ou não.

Jorge Machado – É o culminar de um trabalho diário do projecto.

Bela Azevedo – É a materialização de todo o esforço dos ensaios em conjunto.

José Sebastião – Nós agora estamos a permitir  partilhar e expor aquilo que criamos e que faz sentido para nós. “Eu inventei uma coisa espectacular para a minha vida, mas guardo-a em casa…”

Jorge Machado – Podes guardar…

José Sebastião – Posso guardar…Mas se eu achar que aquilo é uma ferramenta útil para a vida de qualquer um…Mas também se ninguém pegar nela, se serviu a mim, já valeu a pena. O palco é um espaço para ver e ouvir. Quando se está lá em cima há várias emoções. É quase como um tipo que salta de pára-quedas ou faz alpinismo e há ali um momento de presença e de atenção e foco que não nos leva para outro lado. Estamos a tocar , temos o público ali e estamos ali. O ideal era que sentíssemos isso no resto dos dias e no resto das horas pois era sinal que estaríamos iluminados. É um momento em que mais nada importa. Atribuímos um significado ao palco e àquele momento que outras vezes não atribuímos a outros momentos da vida. O público e nós somos a mesma coisa.
Qual é o grande sonho do grupo?
(Risos)
José Sebastião – O maior sonho está realizado. É o encontro, é a música e aquilo que a gente faz com prazer…

Berta Azevedo – É o reconhecimento do trabalho que fazemos e o poder fazer disto vida. Há quem faça.
José Sebastião – Se o foco estiver no dinheiro, passamos a gostar mais do dinheiro e não da música.

Hugo Claro: Voz, Guitarra Clássica, Guitarra Portuguesa, Bandolim e Acordeão | Jorge Machado: Percussões (Cajón, Darbuka, Udu Drum, Frame Drums, Tambor de Água, Tarola, Pratos) e Taças Tibetanas | Berta Azevedo: Voz e Pequenas Percussões | José Sebastião: Baixo Eléctrico e Coros

http://www.myspace.com/projectoatma

Entrevista e fotos: José Luís Costa
Edição fotos: Jerôme Wibrin

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